“É uma virose”. A frase, que soa para o paciente mais como dúvida do que como diagnóstico, é pronunciada nos consultórios médicos há pouco mais de uma década. “Antigamente, as doenças causadas por vírus tinham nome. Desde que tenho filho, são sete anos ouvindo que ‘todo mundo está pegando, é época de virose’. Os próprios médicos não sabem o que é”, diz a dona de casa Sueli Calegario, mãe de Lucas, 7 anos.
A impressão de que a palavra virose é nova é atribuída, segundo o pediatra Tadeu Fernando Fernandes, colunista do jornal Correio Popular, ao fácil acesso que a população tem aos médicos hoje em dia. “Há 15 anos, não havia posto de saúde e nem hospital em cada esquina. Poucos tinham carro, as consultas eram caras e não havia convênios médicos. Um mal-estar era curado com a receita da vovó: banhos para abaixar a febre, repouso para as dores no corpo e chá quente de limão para aliviar a garganta. Em poucos dias, o doente estava são. Não havia oportunidade de ouvir o diagnóstico de um médico atestando que era virose”, lembra Fernandes.
As doenças virais são conhecidas desde o início do reconhecimento das doenças humanas. Atribui-se a Hipócrates (o pai da Medicina, que viveu antes de Cristo) o primeiro relato de hepatite benigna. Só no final do século 19 e início do 20 surgiu a identificação dos vírus. Seguiu-se, então, a descrição da primeira doença humana relacionada a um vírus como agente causador: a febre amarela.
Entre as doenças viróticas humanas mais antigas estão a raiva e a poliomielite. Entre as mais recentes, estão a Aids (causada pelo vírus HIV) e as febres hemorrágicas (Ebola, Hantavírus). O vírus Influenza, causador da gripe, fez muitos estragos no passado. Foi responsável pela gripe espanhola, que matou mais de 20 milhões de pessoas.
Sintomas imprecisos ou clássicos
O clínico geral e cardiologista Paulo César Ribeiro Sanches, que é presidente do Departamento de Clínica Médica da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas e pesquisador do setor de Eletrocardiografia do InCor – HC da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), explica que há milhares de vírus causadores de viroses. Muitas delas têm sintomas imprecisos, ao contrário de sarampo, caxumba, gripe e resfriado, que apresentam quadros clínicos inconfundíveis, como as erupções na pele, no caso da catapora.
No entanto, muitas viroses trazem sintomas semelhantes, como dor de cabeça, febre e dores no corpo. Até que se façam exames laboratoriais para identificar o causador, o doente já está curado e pronto para outra”, pondera Sanches.
Segundo ele, há poucos institutos de pesquisas no País com estrutura para isolar o vírus e estudá-lo, como faz o laboratório de pesquisas da Fundação Osvaldo Cruz, no Rio de Janeiro. “Os resultados ficam prontos entre 14 e 21 dias. É muito investimento para logo ser esquecido, pois o paciente se recupera e nem se lembra mais que tem resultado de exame para chegar”, afirma o clínico geral.
A dentista Yolanda Camargo, 40 anos, recentemente teve suspeita de dengue. Como ela apresentou os sintomas da doença (dores musculares, nas juntas e na cabeça, febre alta, fraqueza, redução de glóbulos brancos), teve seu hemograma encaminhado para investigação na Fundação Osvaldo Cruz. “Já faz um mês. Fiquei boa e o resultado do exame não chegou. A vigilância sanitária procurou focos do mosquito Aedes aegypti (transmissor da doença) na minha casa e no meu trabalho e não achou. Depois de alguns dias, refiz o exame de sangue, que atestou normalidade nos glóbulos brancos. Meu médico e eu tomamos as providências para identificar a virose, mas continuamos sem saber”, conta Yolanda.
Diante desse quadro, cabe ao paciente, ao ter o diagnóstico de virose, confiar no especialista e seguir as orientações médicas. “Não fico insatisfeita quando o pediatra diz que o meu filho tem uma virose. Apesar de conhecer todas as fases da doença e saber como tratar, nunca deixo de consultar o médico”, ressalta a terapeuta reiki Renata Bento, mãe de Gabriel, 5 anos.
A estudante de psicologia Kellin Lotrário Hogata, mãe de Ana Carolina, 3 anos, e de Laura, 1, assustou-se com a freqüência com que a filha mais velha passou a contrair virose depois que entrou na escolinha, em fevereiro. Como se não bastasse, os vírus sempre contaminam Laura, que acaba adoecendo com a irmã. “Entendi que faz parte da nova fase que a minha filha está vivendo. Não hesito em ligar para a pediatra quando aparece um sintoma novo e, como sempre acompanho bem de perto, tudo acaba bem. Espero que a Laura ganhe bastante anticorpos para estar mais resistente quando chegar sua vez de ‘estudar’”, diz Kellin.
O desejo da mãe tem tudo para ser atendido. O pediatra Tadeu Fernando Fernandes confirmou que isso realmente ocorre. “Ana Carolina está transportando vírus e bactérias para casa. Com isso, Laura vai se tornando mais resistente. Quando ela for para a escolinha, não contrairá tantas viroses. Nesse aspecto, o segundo filho sempre sofre menos que o primogênito”, esclarece Fernandes.
Conforme dados médicos, as viroses duram entre três e cinco dias. Normalmente é indicado tratar os sintomas e ficar atento para o surgimento de complicações, que podem prolongar o problema. “Passado esse período, se o paciente não melhorar, deve voltar ao consultório para nova avaliação”, adverte o clínico geral Paulo César Ribeiro Sanches.
Alta incidência na infância
O pediatra Tadeu Fernandes diz que 85% das doenças febris na infância são de origem viral, segundo dados da Sociedade Brasileira de Pediatria. No entanto, tanto crianças quanto adultos devem consultar um médico, que é o profissional capaz de fazer o diagnóstico clínico preciso. Os médicos alertam que infecção intestinal e pneumonia, por exemplo, têm sintomas semelhantes no início, no entanto, recebem tratamentos diferenciados.
“A pior coisa que a pessoa pode fazer é se automedicar. O medicamento pode mascarar o quadro clínico e retardar a ida ao médico. Além disso, pode alterar os sintomas e, numa posterior consulta, enganar o médico em seu diagnóstico. É extremamente perigoso se deixar levar pelo parecer de um leigo, seja o farmacêutico, a comadre ou si mesmo”, observa o clínico geral Paulo César Ribeiro Sanches.
Resfriados comuns, gripes, bronquiolites, pneumonias viróticas, verrugas, molusco contagioso, paralisia infantil, caxumba, sarampo, rubéola, hepatite e outras são exemplos de doenças viróticas na infância.
Batalha campal e guerrilha
O vírus é um parasita e entra nas células do organismo. Como cada um tem sua particularidade, ataca de diferentes formas, provocando diversas doenças. Se for gripe ou resfriado, por exemplo, o vírus é contraído pelas células das vias respiratórias, bastando uma simples conversa para haver o contágio. Se for uma conjuntivite viral, pelas células dos olhos. Sarampo, pelas células da pele, e Aids, pelos glóbulos brancos (linfócitos) do sangue.
Vírus é diferente de bactéria, que é mais grave e requer cuidados especiais. Cabe aos médicos fazer o diagnóstico diferencial. Na virose, o tratamento combate os sintomas, já que a eficácia dos antivirais são contestadas por muitos médicos. As infecções bacterianas são combatidas com antibióticos.
As diferenças entre o vírus e a bactéria são muitas. O vírus é a menor e mais e simples forma de vida conhecida. Ele é de dez a cem vezes menor que a bactéria. A principal diferença entre eles é que o vírus necessita de um hospedeiro vivo – como uma planta, um animal ou uma pessoa – para se multiplicar, enquanto a maioria das bactérias pode crescer em superfícies não vivas, como no chão ou na pia.
Ainda, ao contrário da bactéria, que ataca o corpo como um pequeno soldado montando uma batalha campal, o vírus é um “soldado de guerrilha”. Ele literalmente invade e altera o material genético das células para criar condições de se reproduzir.
Além disso, a bactéria transporta todo o “maquinário” necessário para o seu crescimento e multiplicação, enquanto o vírus transporta principalmente informação – por exemplo DNA ou RNA, contidos numa proteína e/ou membrana exterior.
Já o vírus danifica o “maquinário” das células dos hospedeiros para se reproduzir. De certa forma, o vírus não vivem propriamente, são sim, informações (DNA ou RNA) que flutuam no ambiente até que um hospedeiro vivo conveniente seja encontrado.
2006-10-15 09:45:19
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answer #9
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answered by Sandman 3
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